#trompelesprit

Frederico Brízida

21 MAR a 28 ABR 2017

Espaço Painel

Artista

Frederico Brízida

Data

21 MAR a 28 ABR 2017

Galeria

Espaço Painel — Porto

Morada

Espaço Painel

Rua das Taipas, nº135 (edifício Ispup, junto à Cordoaria)

#trompelesprit

Mário de Sousa Carvalho

Mário de Sousa Carvalho

#trompelesprit, de Frederico Brízida, é o segundo momento expositivo no Espaço Painel em 2017. Para esta exposição, o artista convidado apresentou uma única obra composta por media distintos – entre eles: a fotografia tirada por telemóvel, a projecção de vídeo, o vinil sobre vidro e o áudio. Podemos entendê-la e denominá-la de instalação-ambiente, uma vez que se espraia por todo o espaço interior (inclusivamente, se apropria de um dos vidros pela parte exterior) e unifica o espaço não só pela presença física mas também pela sonora, criando  assim um cosmos próprio dentro de uma realidade pré-existente.

No início do diálogo com o artista propôs-se uma incursão nas possibilidades da fotografia captada por telemóvel e de que modo ela extrapola a impressão enquanto imagem ao lhe serem acrescentadas impressões de outras naturezas advindas da envolvente, bem como de que maneiras os jogos e os meandros de consciência quanto ao que motiva e potencia o acto fotográfico nos nossos dias leva a que a imagem captada transcenda a mera tentativa, outrora mais relevante, de uma não-perda do momento. Rapidamente estas preocupações e intenções evoluíram do ponto de vista conceptual e plástico para e com uma outra mais abrangente e historicamente identificada como arte total, um conceito e, de certa maneira, uma orquestração de práticas, que remonta ao tempo da Contra-reforma (séculos XVII e XVIII) altura em que a Igreja Católica reagia aos avanços do Protestantismo ao fazer-se servir das então disciplinas artísticas (sobretudo a pintura, escultura, arquitectura e música) para transformar os espaços de culto em autenticas câmaras de maravilhamento dos sentidos, esperando, desse modo, ganhar a afeição de um maior número de fiéis. Afigurou-se-nos pertinente estabelecer esta ponte com a conjuntura e abordagem deste momento civilizacional passado do Ocidente uma vez que os paralelismos possíveis com o nosso tempo são notórios. Tanto então como agora, a conquista da nossa escolha (independentemente da natureza da área em causa) tenta, constantemente, ser manipulada por estímulos exteriores, amiúde produzidos intencionalmente por outrem. Este fenómeno – o qual já nem identificamos na totalidade, com excepção, porventura, de situações demasiado notórias quanto ao seu grau de invasividade – é um dos aspectos chave do nosso contemporâneo, cuja importância se liga mais ao que nos impede de transcender do que ao que nos permite avançar como civilização.

Ao deambularmos pela exposição damo-nos conta de vários momentos dicotómicos do ponto de vista plástico, os quais formam, intermitente e simultaneamente, um todo diverso, dual mas unificado. Um dos mais notórios proporciona-se através das projecções de imagens fixas, cuja definição da imagem e intensidade cromática se acentuam pela obliteração gradual da luz natural que vem do exterior. Este apontamento, além de intencional, activa outro dos elementos da exposição: as fotografias tiradas por telemóvel, as quais perdem legibilidade com a ausência progressiva da luz natural. Por todos os elementos serem a preto e branco como o é o próprio espaço expositivo, a obra ganha ainda mais uma dimensão de micro cosmos, a que o áudio de frequências mais graves e volume elevado acrescentam um carácter tão estanque enquanto realidade paralela, que nem o contacto visual com o exterior através das superfícies envidraçadas anula o seu caráter imersivo.

#trompelesprit, mais do que uma exposição ou uma obra, é uma impressão do “ar” do nosso tempo, uma subliminaridade que vive no nosso inconsciente colectivo a ditar uma carência e um espectro de acção.