Petri [with "y"]

Mário de Sousa Carvalho

Prometi a mim mesmo que se um dia viesse a desenvolver curadoria, não faria o que tantas vezes experienciei e me desagradou em exposições onde o entretenimento se sobrepunha à inteligência e quase sempre a anulava, sordidamente.

Nem tão pouco me contentaria em conceber uma exposição cujo conceito não fosse pertinente para reflectir sobre o nosso tempo e resultasse num mero adereço para estimular o onanismo filosófico, escusadamente pedante e intrincadamente redutor, que tão frequentemente verifico em conversas sobre arte.

Muito menos que essas exposições fossem “áridas” na sua relação com o espaço e, sobretudo, com o espectador, jamais deixando que elas perdessem a qualidade essencial de se fazerem entender o melhor possível – quer pela envolvente do todo, quer pelo destaque equilibrado de cada obra – por forma a serem íntimas de quem as procurasse interessada e genuinamente. Que eu fizesse desse entendimento uma ponte para a viagem interior compenetrada que qualquer exposição relevante proporciona, onde o espectador se esqueceria do seu carácter passageiro no espaço expositivo e o sobreporia à vida que traz do exterior.

Prometi tudo isto a mim mesmo e não tenciono faltar a essa promessa; continuarei a desenvolver curadorias onde a comunicação, a intimidade, a imersividade e a contemporaneidade se reafirmam como uma definição de mim próprio.E se um dia não me for possível continuar a fazê-lo, prefiro dedicar-me a outra coisa, noutro sítio, talvez de novo ou numa nova área.

Enquanto esse dia não chegar, é tudo o que tenho a dizer.

 

Bio.:

Licenciado em História da Arte, interessa-se por psicologia, sociologia, antropologia e todas as áreas de estudo que contribuam para o conhecimento e aprofundamento do ser humano, sendo a curadoria de arte contemporânea um dos meios pelo qual encontrou forma de se aproximar desse interesse.
Ocasionalmente escreve, entre outros assuntos, sobre arte, preferindo, contudo, uma conversa enriquecedora à palavra escrita por crer que aproximadamente tudo o que importa escrever já foi escrito mas o encontro em pessoa entre duas concepções únicas e irrepetíveis da realidade, por outro lado, pode levar a desenvolvimentos inéditos.
Vive no Porto desde 2009.