Petri [with "Y"]

Elsa Melo

A ideia de pensar o espaço como um laboratório, onde a experiência é o motor de toda a obra, foi algo que me atraiu logo à partida. O espaço é o lugar onde artistas e curadores levam a cabo várias experiências, onde as mesmas podem resultar (ou não) em objetos artísticos. Existe uma questão fundamental: com este pensamento do espaço como laboratório, não existe a questão da falha. Isto é, tudo o que fazemos, tudo o que produzimos é algo que vale por si. O que alguém pode considerar “falha” é, na verdade, o resultado de um processo experimental, de um laboratório de ideias e práticas trocadas entre nós e os outros.             A liberdade de trabalhar num espaço como este é única. Os artistas são convidados a experenciar essa mesma liberdade no trabalho que produzem, sem pressões, falhas ou obrigações.\r\n\r\nA questão da intimidade entre o espaço expositivo e o espetador sempre foi uma preocupação e foco de interesse da minha parte. Penso que é uma questão fundamental quando pensamos na relação que deve existir entre os dois. O estabelecimento desta intimidade é crucial para que o espaço comunique e se ligue ao espectador. Para mim, esta ligação deve comportar-se como uma dança – onde a entrega das partes é total. O espectador deve libertar-se de várias conceções e ideias, e numa postura de humildade entregar-se ao espaço que, por sua vez, já foi preparado pelo curador a pensar nessa dança, que na contemporaneidade é muito mais que visual.\r\n\r\nNa Petri (with “y) a questão da intimidade é transversal. Está presente em cada debate, em cada troca de ideias. Um objetivo comum: propor um espaço que atraia o espetador, em que este se sinta intimamente ligado a ele. Esta intimidade está diretamente ligada ao grau de imersividade e comunicação que o espaço expositivo concede ao espectador. Este não deve ser um elemento a mais no espaço, mas sim um elemento integrante do espaço. O corpo deve ser envolvido por toda a dimensão espacial. É nosso objetivo propor um espaço imersivo, onde o espectador se sinta um elemento do próprio espaço, comunicando com os vários objetos artísticos.\r\n\r\nPensar a arte contemporânea é obrigatoriamente refletir sobre o espaço, o objeto artístico, o espectador e a comunicação que se gera entre eles. A arte deve ter sempre um carácter comunicativo e uma função social e política. Deve dizer-nos sempre algo, que vai muito além do seu caracter estético e contemplativo. Deve ser um motor de mudança. Propor ao público uma reflexão e uma acção, parece-me algo pertinente quando discutimos questões artísticas. Partindo do pressuposto de que o ser humano é um animal político e social, e que tudo em nós é uma afirmação política, que o próprio corpo é político, a arte produzida por ele tem, obrigatoriamente, um caracter político.\r\n\r\nPor ser tão fundamental pensar a arte contemporânea como tendo uma função política, torna-se inevitável que, pessoalmente, o trabalho que eu produza reflita essa mesma questão, que está sempre presente em cada discussão. É cada vez mais necessário pensar o mundo, debater ideias, confrontá-las, e mais do que tudo, é necessário agir e denunciar. E é esse mesmo o convite que faço aos artistas.

 

Bio.:

Elsa Melo (Porto, 1991) licenciou-se em 2013 em Cinema e Audiovisual pela Escola Superior Artística do Porto e está neste momento a finalizar o mestrado em Estudos Artísticos – Estudos Museológicos e Curatoriais na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Trabalhou em 2014 na produtora “A Garagem do Barão”, onde realizou trabalho nas áreas da produção de concertos, videoclips, eventos, entre outros. Fez também várias colaborações com a produtora cinematográfica AMANTA Filmes. Em 2015 ingressou no mestrado e estagiou no espaço independente Sismógrafo entre Setembro de 2016 e Março de 2017. Trabalha ainda como produtora independente. Vive no Porto.