Petri [with "y"]

David Silva Revés

Serão tentativas, todos eles. Como sempre o deverão ser. E mesmo que não devam, só assim podem ser tomados. Sê-lo-ão, independentemente da minha vontade. Só uma tentativa se torna liberta da pretensão de uma imposição. – Eles, os momentos de apresentação, as exposições, reflexões, conversas e explorações visuais, os encontros que estabelecemos (com os outros, com os objectos, com o mundo). Tentativas de aproximação, de tangência a realidades longínquas ou realidades que, de tão impregnadas nas nossas vivências e práticas quotidianas, se tornam resistentes a um olhar problematizante, inquiridor a essas construções, distraído que se poderá encontrar pela conformação (ou deformação) do espírito. A força de um olhar pensante terá sempre, aqui, a sugestão de uma determinação. É com esta vontade que nos lançamos sobre todas as experiências que propomos estabelecer – em nós, nos artistas, nos espectadores – connosco, com os artistas, com os espectadores. O “nós”, o “eles” e o “eu” misturam-se em razões proporcionais. Mas para que possa responder ao intuito desta pequena introdução, falarei agora com a especificidade das minhas intuições.

Porque de curadoria se pretenderá falar. Esta que, todavia, não deixará de ser uma das múltiplas formas de relação (nunca nos poderemos esquecer do nosso estado de seres para a relação. o esquecimento traz entorpecimento). Uma relação que se pressupõe íntima. Que crie intimidade. Uma relação com os outros e com o meio no qual vivemos – esta hipercontemporaneidade onde a hipermediação tecnológica transforma, constante e inconscientemente, a intimidade e essencialidade das nossas relações: um molde para a experiência. Uma pró-forma-palco de actuação. Um médium que se torna no meio.

Procuremos, assim, uma forma de curadoria que se desenvolva, ela própria, nas tentativas (por incentivo ou oposição crítica) de resgate do toque material, do toque sensível (e não falo só de uma dimensão física). Este que tem maior potência em se fazer corpo, em devir consciência. Em se fazer alongar nas volutas da memória.

Um forma de curadoria como a forma de um estar, como um sublinhar de tanto estares diferentes. Um caminho conjunto cujo fim ficará sempre em aberto.

 

Bio.:

David Silva Revés (Lisboa, 1992) é mestrando em Estudos Artísticos, vertente Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Licenciado em Comunicação pela Escola Superior de Comunicação de Lisboa, tendo frequentado também os cursos de Estética, História da Arte Contemporânea e Neovanguardas da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Colabora regularmente com textos de carácter crítico e/ou ensaístico para revistas e outra publicações de âmbito artístico e cultural. Vive em Lisboa. Trabalha entre Lisboa e Porto.