Halo Cost

Hugo de Almeida Pinho

21 JAN a 28 FEV 2017

Espaço Painel

Artista

Hugo de Almeida Pinho

Data

21 JAN a 28 FEV 2017

Galeria

Espaço Painel — Porto

Morada

Rua das Taipas, 135 (Edifício ISPUP, junto à Cordoaria)

Horários

Horário geral: 8:30h-20h

Horário de exposição: 18h-20h

Um circuito-movimento para a Imagem Contemporânea

David Silva Revés

David Silva Revés

Construir uma exposição, pensá-la, dentro de um domínio curatorial pressupõe a construção de uma narrativa que a permita enquadrar numa forma de pensamento unificador – em contínuo.
Sê-lo-á?
Na tentativa de adequação perder-se-ão elementos de fronteira, limbos de significação, substratos de compreensão. Porque toda a obra de arte, toda a grande obra de arte (pondo de lado a pretensão em que posso incorrer com adjectivo grande) é, para mim, um dizer ecoado, um poder em potência, um estar em devir. As obras são segredos, as exposições nevoeiro – as respostas ficam em aberto. É lá que deverão ficar, nesse aberto criado pela obra, como diria Heidegger.
A força do trabalho de Hugo de Almeida Pinho está, precisamente, no facto de as suas obras serem exactamente aquilo que são, fissurarem o real sensível criando esse “aberto”, e conseguirem viver, no espaço da galeria, tão-somente por isso – por se constituírem e construírem assim – por guardarem os seus segredos para si e se limitarem a apontar um dedo, a dizerem: olha para mim, olha para isto. São objectos pensantes mas resguardados de um diálogo que poderia resultar ensurdecedor.
Não quero com isto dizer que estejam votadas ao silêncio, à não-expressão contemplativa de si próprias. Não. Elas falam e interagem entre si, criam forças invisíveis aquém e além delas próprias, forças que se estendem em movimentos circundantes, circulares, imbricativos, que tocam a percepção e a compreensão.
Mas falava na construção de uma narrativa como a vontade de um projecto curatorial. Poderá sê-lo num primeiro momento. Um momento em que se pensam as premissas inicias, aquelas que inauguram uma primeira conversa (e muitas das restantes), depois da escolha do artista, e que servem como linhas motoras para o trabalho a ser desenvolvido. A partir daqui, a concretização em obra dessas premissas segue as volutas do pensamento.
Halo Cost não responde perante uma narrativa fixa, ela inaugura múltiplas narrativas que se estratificam perante um olhar reflexivo que procure desvendar aqueles mistérios, perceber os seus enigmas, correlacionar hipóteses e avançar perguntas.
Esta exposição é, acima de tudo, um pensamento sobre a imagem, uma imagem que se procura compreender a si própria, percebendo a sua origem matricial e problematizando um estar-existir nos regimes de visualidade contemporâneos, onde a catadupa das suas aparições, formas e conteúdos – numa hipertrofia imagética – rapidamente se transforma na vertigem da sua destruição.
Uma destruição, ainda assim, conducente a uma nova imagem. Uma imagem que se cria pelo apagamento da que a antecedeu. Há uma circularidade na sua existência, pois a destruição é sempre a força motriz da nova forma. Trabalha-se em palimpsesto.
Todas as obras vivem na tensão poética do paradoxo e é nesse jogo do que são, do que foram e do que poderiam ser que reside a força da sua manifestação, do seu insurgir enquanto corpo autónomo.

Halo Cost, de Hugo de Almeida Pinho, é a primeira e, provavelmente, a mais simbólica exposição que terá lugar no Espaço Painel durante a residência do colectivo Petri [with “y”] neste ano 2017.
Por ser a exposição inaugural, foi, do ponto de vista curatorial, especificamente pensada e concebida enquanto exposição-manifesto, conferindo-se-lhe um propósito e um significado subliminar orientado em todos os aspectos e dimensões, desde o posicionamento das obras no espaço, passando pelo estudo dos momentos de contacto com elas, até ao modo como as várias camadas de interpretação chegam ao visitante. Trata-se de uma complexa elaboração metafórica que resulta de uma investigação densa em curadoria e de uma preparação longa em diálogo constante com e entre todos os intervenientes, sobretudo artista.
O título reflecte o mote gerador da exposição: a dicotomia luz vs escuridão, a qual se traduz, metaforicamene, na dicotomia individualidade vs individualismo. A razão da sua escolha está ligada com um tema intemporal mas cada vez mais premente nos nossos dias: o eu e o outro – tema esse que serviu de ponto de partida para reflectirmos e definirmos (enquanto colectivo-ainda-em-formação, há uns meses) o nosso modo de funcionamento interno, levando-nos à decisão de não colaborar em bloco hierárquico nem de forçar a integração dos três elementos do grupo para cada curadoria, respeitando, assim, o lado “luminoso” do eu (ou seja: a posição de cada um à procura do consenso com o outro, aceitando que ele possa não existir) e rejeitando o lado “sombrio” (ou seja: a posição de um sobrepondo-se à do outro sem abertura para o acordo comum). Halo Cost, enquanto nome, surge, portanto, da fronteira entre a luz e a escuridão (o Halo) e do custo que viver nessa indefinição, nesse estado límbico que nos remete para a incompletude e a corrupção do lado “luminoso” do eu, acaba por implicar, num sentido mais abrangente e transversal. Simultaneamente, foi pensado como um jogo fonético com a palavra Holocaust (holocausto), criando uma referência a esse processo de destruição e perda irremediável pelo fogo (aqui entendido como uma das versões da Luz), destruição essa que, ao contrário do que seria de supor, não se catalisa, segundo a tónica que se lhe conferiu nesta exposição, pelo excesso de luz/fogo mas sim pela indefinição que se potencia ao viver-se numa fronteira ambígua e tendencialmente privada da dita essência “luminosa”.
Também o espaço vive da projecção dessa dicotomia, jogando com a necessidade de isolamento da luz natural que levou ao fechamento em blackout das grandes superfícies envidraçadas, criando, assim, um cosmos próprio para que as obras patentes pudessem ver revelado todo o seu potencial plástico pela presença da luz por elas gerada, em contraste com a ausência da luz exterior que, desse modo, as acentua. Somente um dos vidros não foi deixado “fechado”; e digo “deixado”, pois, inicialmente, foi, à semelhança dos restantes, coberto com um pigmento isolador, o qual, posterior e intencionalmente, se “partiu”, fazendo do ecrã negro um aglomerado de pequenos estilhaços junto ao rodapé da superfície envidraçada em questão. A natureza desta acção é metafórica, uma vez que o posicionamento de uma das obras [Refuse Operating Your Gesture Behind Illusory Victory (or ROYGBIV)] – a qual apresenta, como um dos seus elementos marcantes, a projecção intensa de dois focos de luz – foi pensado para ser vista, primordialmente, do exterior da superfície envidraçada, resultando os ditos estilhaços como uma sugestão de quebra desse ecrã negro pela intensidade de luz dos focos e por uma certa “vontade” por parte da obra em querer irromper de entre esse cosmos isolado, contrariamente ao que sucede com as restantes duas obras [Olho-Cego e Les Féeries Interieurs] – as quais vivem de um forma mais potenciada no ambiente contrastantemente escuro do interior do espaço expositivo. Para quem visita, o carácter imersivo é uma constatação imediata. Não só o isolamento físico do exterior o denota aos sentidos elementares, como a aura de várias intensidades lumínicas e naturezas materiais das obras sugerem várias subliminaridades estéticas – e, consequentemente, se assim extrapoladas, também conceptuais – que incitam, por um lado, um certo maravilhamento do domínio do empírico e, por outro, do domínio da sensibilidade mais espiritual e sublime. Um olhar perscrutador dará conta das várias tensões e diálogos entre as três obras patentes, sobretudo pelas sobreposições das diferentes naturezas da luz de cada uma, as quais, se interpretadas espacialmente segundo uma orientação do núcleo central do espaço [onde se encontra Les Féeries Interieurs], rumo à superfície envidraçada [onde está Refuse Operating Your Gesture Behind Illusory Victory (or ROYGBIV)], passando, assim, pelo corredor central – onde os movimentos quase erráticos e vigilantes dos projectores de slides [de Olho-Cego] de certa forma ligam as duas restantes obras ao projectarem as imagens junto de cada uma delas – sugerem o contágio dos diferentes halos criados por cada uma das obras e, subliminarmente, incitam o questionamento das possíveis interpretações que as relacionem.
Porque cada olhar é único e irrepetível, as interpretações de cada um, bem como a sua validade, por consequência, também o são. No entanto, nada impede que o olhar do artista e dos curadores possam chegar ao visitante e, de uma maneira não-invasiva, que estes proponham elementos que enriqueçam a experiência das obras e da exposição, levando, assim, a novas conjecturas e interpretações. Por essa razão, fez-se questão de que, pelo menos, um dos curadores estivesse presente em todos os dias em que a exposição abriu ao público, de modo a que apontamentos importantes não caíssem no vazio e pudessem estar ao alcance do visitante para os absorver e transformar segundo a pertinência e mais-valia que neles encontrasse. Trata-se de um entendimento da curadoria enquanto um trabalho de optometria, ajustando a lente de quem vê, jamais assumindo ser a única ou a forma “correcta” e derradeira de entender as obras apresentadas, que a interpretação é uma leitura que se vai construindo por camadas, sem jamais ser dada por encerrada a possibilidade de acrescento; no fundo, é uma crença nossa a arte poder ser verdadeiramente exposta e não simplesmente mostrada.
Afinal, de que serve algo ser tão rico se a sua riqueza não possibilitar a quem a procura enriquecer através dela?